Por Gerge Duarte da Redação 07/06/2026
Depois de 35 anos dedicados à educação, muita gente imagina a aposentadoria como o momento ideal para desacelerar. Para a professora aposentada Luíza Soares, aos 57 anos, aconteceu exatamente o contrário. Foi somente depois de encerrar a carreira como servidora pública que ela decidiu finalmente tirar do papel um sonho que a acompanhava desde a juventude: empreender.
Ao lado da filha, Luíza Marques, embaixadora da marca, ela criou o Império Amazônico, marketplace especializado em produtos amazônicos que conecta pequenos empreendedores regionais a consumidores espalhados por todo o Brasil. O negócio nasceu de uma combinação entre experiência, propósito, persistência e da vontade de transformar algo que permaneceu guardado durante décadas em realidade.
“Eu esperei quase 60 anos para começar a empreender”, resume.
O desejo, no entanto, sempre existiu. Segundo Luíza Soares, desde jovem havia vontade de construir o próprio negócio, mas as circunstâncias da vida acabaram adiando os planos. Casamento, filhos, estabilidade profissional e responsabilidades familiares fizeram com que o sonho permanecesse guardado enquanto ela construía sua trajetória na educação.
Quando chegou a aposentadoria, porém, a decisão foi diferente.
“Quando me aposentei, pensei: agora é a hora”, relembra.
O que inicialmente seria apenas um site para vendas online começou a ganhar proporções maiores à medida que mãe e filha mergulhavam em estudos sobre mercado digital, tecnologia, comportamento do consumidor e logística. Aos poucos, perceberam que não queriam criar apenas uma plataforma de vendas. O objetivo passou a ser construir um espaço capaz de conectar produtores amazônicos ao mercado nacional.

Mais do que comercializar produtos, elas queriam construir uma vitrine da Amazônia.
“Existem pessoas que compram preço. Mas existe um público que compra identidade, história e origem”, afirma a empresária.
A construção do negócio também passou por capacitações, consultorias e uma busca constante por conhecimento. Luíza Soares conta que procurou apoio técnico no Sebrae para entender como transformar a ideia em empresa e acredita que esse processo foi fundamental para tornar o sonho viável.

“Participar de eventos, fazer capacitações, construir rede de relacionamento e procurar orientação fez toda diferença”, afirma.
Mas transformar um marketplace amazônico em realidade significava enfrentar um obstáculo inevitável: a logística.
Empreender na Amazônia significa lidar diariamente com distâncias continentais, dificuldades de transporte e altos custos operacionais. Antes mesmo de buscar empresas para integrar a plataforma, mãe e filha decidiram estudar justamente aquilo que costuma ser apontado como um dos maiores desafios da região.
A preocupação veio antes da expansão.
Primeiro foi preciso compreender meios de pagamento, sistemas integrados, plataformas de envio e distribuição nacional. Somente depois começaram a estruturar a entrada de empreendedores.
Hoje, segundo elas, o marketplace já atende consumidores em diferentes regiões do país.
“Costumamos dizer que entregamos literalmente do Oiapoque ao Chuí”, afirma Luíza Soares.

A estratégia consistia em criar um sistema onde o empreendedor pudesse dedicar energia à produção enquanto a plataforma assumiria parte da operação digital, comercial e logística.
O modelo começou a apresentar resultados rapidamente.
Segundo as empreendedoras, muitos empresários regionais relatam que encontraram no marketplace uma solução para dificuldades que enfrentavam havia anos: ampliar mercado, vender nacionalmente e construir presença digital sem precisar abandonar a produção.
“Eles dizem que conseguem focar no produto enquanto a gente ajuda na metodologia de venda”, explica Luíza Marques.
Embora outros familiares participem da empresa nos bastidores, são mãe e filha que comandam a operação. A convivência empresarial entre duas gerações diferentes trouxe desafios, adaptações e aprendizados.
“Às vezes é desafiador porque ela é minha mãe, mas a gente aprendeu a ouvir uma à outra”, conta Luíza Marques.
Enquanto Luíza Soares traz a experiência acumulada ao longo de décadas, visão estratégica e planejamento, a filha atua diretamente na construção da marca, relacionamento com público e posicionamento do negócio.

A complementaridade acabou se tornando parte da própria identidade da empresa.
“Não podemos perder nossa identidade. Identidade é tudo”, afirma a fundadora.
Essa identidade se tornou também o principal diferencial do marketplace.
Mel de abelhas sem ferrão, óleos amazônicos, cosméticos naturais, alimentos regionais, artesanato e produtos produzidos a partir de insumos da floresta fazem parte do catálogo. Mas, segundo as fundadoras, o verdadeiro valor não está apenas nos produtos comercializados.
Está nas histórias.
Cada empreendedor, cada família produtora e cada item vendido carregam consigo histórias construídas dentro da Amazônia. Boa parte dos consumidores, inclusive, está fora da região Norte.
Segundo elas, existe um público interessado justamente em consumir produtos que carreguem origem, território, cultura e conexão com a floresta.
Ao mesmo tempo, existe uma inquietação que impulsiona o negócio.
Para Luíza Soares, ainda é comum encontrar produtos amazônicos ganhando escala nacional por meio de empresas localizadas fora da região, enquanto produtores amazônicos enfrentam dificuldades para acessar o mesmo mercado.
“A gente sabe que tem potencial, tem qualidade e precisa ocupar esse espaço”, defende.
Hoje, o sonho guardado durante décadas se transformou em negócio, geração de renda e oportunidade para dezenas de empreendedores. E, apesar dos avanços, os planos continuam ambiciosos.
Entre os objetivos futuros estão fortalecer a logística regional, criar centros de distribuição e ampliar a presença dos produtos amazônicos em mercados internacionais.
Se existe uma mensagem que Luíza Soares faz questão de repetir, é que não existe idade certa para começar.
“Grandes projetos nascem de pequenos passos dados com fé, coragem, propósito, resiliência e perseverança”, afirma.
A professora aposentada que passou décadas adiando o sonho hoje olha para trás com a certeza de que ainda havia tempo.
“Hoje nós somos o que grandes empresas foram ontem. Elas também começaram pequenas”, conclui.





